Thursday, 17 February 2011

BE BRAVE AND JUST FACE LIFE...


Por que você não consegue virar a mesa?


GISELA RAO
Colaboração para o UOL

“Inconscientemente, muitos pais ensinam seus filhos a terem medo, quando na verdade deveriam ensinar quando enfrentar e quando se proteger destes medos"
“Inconscientemente, muitos pais ensinam seus filhos a terem medo, quando na verdade deveriam ensinar quando enfrentar e quando se proteger destes medos"

A segunda-feira deve ter uma espécie de maldição. É quando a maioria de nós tenta começar o regime, malhar na academia, sair daquele relacionamento tóxico, do emprego que nos estressa tanto etc etc. Mas a segunda-feira, “maledeta”, nunca deixa. E vamos empurrando a vida com a barriga e não conseguimos nunca virar a mesa. Mas será mesmo que a “maldição-da-múmia” está no calendário ou na sua cabeça? A psicóloga e terapeuta sexual, Dra. Margareth dos Reis, analisa:
“Muitas pessoas acabam se acomodando no que chamamos de “zona de conforto”, mas na realidade ela é bem desconfortável, porque o medo do novo impede as mudanças e acaba gerando frustração. Quando a pessoa consegue superar isso, descobre que sofria muito mais naquela situação conhecida mesmo pensando que assim evitaria sofrimento”.
Dra. Margareth sugere uma reflexão - “Por que o medo do novo? Por que o medo de se adaptar a um novo paradigma, a um novo cenário? Por que o novo precisa ser ameaçador? – e lembra que enquanto você está fazendo as coisas sempre do mesmo jeito não tem como esperar resultados diferentes. “Você não precisa pensar em grandes mudanças de uma vez, mas sim nas etapas que o levarão a alcançar o seu objetivo. Cada etapa que você conquistar será uma vitória”. – completa.
A insegurança pode vir da infância e de como somos educados
Para Dorit Wallach Verea,  psicóloga e  especialista em psicossomática, os pais inseguros também tendem a criar filhos inseguros. E como sobram motivos para se ter medo nos dias de hoje, pais e filhos se tornam reféns do medo da violência, medo de doença, medo da falta de dinheiro, medo da solidão, medo de si mesmo.
“Inconscientemente, muitos pais ensinam seus filhos a terem medo, quando na verdade deveriam ensinar quando enfrentar e quando se proteger destes medos, sem necessariamente condená-los ao pânico e ansiedade exagerada, que certamente causarão prejuízos em suas vidas no futuro” – afirma a psicóloga.
Cinco toques do psiquiatra Roberto Shinyashiki para virar a mesa:
> Todos nós temos um lugar de muita grandeza em nossa alma. Às vezes, essa virtude fica escondida por toda vida. Feliz é aquele que a descobre logo cedo e mais feliz é aquele que consegue realizá-la. Virtude, talento, missão de vida e vocação são nomes diferentes para sua grandeza. Você já conhece sua grandeza? O lugar da sua alma em que você é um sábio?

> Procure saber exatamente o que você quer e não tenha pena de gastar tempo determinando seus reais objetivos. As pessoas com objetivos claros sempre levam vantagens.

> Determinação: é aquela força interior capaz de levar alguém a afirmar com convicção: este é meu sonho! Não morro sem realizá-lo, mesmo que demore vinte, trinta anos.

> Em vez de querer mudar o outro, empregue sua energia para compreender sua própria maneira de ser. O outro se sentirá mais valorizado e então poderá também se abrir para mudanças. O passado pode ser transformado quando acreditamos em nossa capacidade de criar o futuro.

> Crescer também significa aceitar que, muitas vezes, perder faz parte do jogo.O campeão sempre aproveita as derrotas como estímulo para evoluir.

Tuesday, 8 February 2011

ENJOY YOUR MEAL!


Gente cansada da arrogância gourmet


 busca

 

comida sem frescura.

IARA BIDERMAN
DE SÃO PAULO

Paulo de Oliveira (à direita), apresentador do programa Larica Total (Canal Brasil) e o chef Claude Troisgos

Paulo de Oliveira (à direita), apresentador do programa Larica Total (Canal Brasil) e o chef Claude Troisgros

Para você que come caviar e sonha com miojo. Ou que sonha com caviar, mas não aguenta mais ouvir coisas como uma-incrível-técnica-que-um-bistrô-em-Paris usa para servir as ovas. Para você que tem preguiça de discutir a metafísica da abobrinha.
Esta história é para você.


Comida boa, todo mundo gosta. Mas o problema é que, para o gourmet, não basta comer: tem que contar.


"O gourmet nunca esquece o nome do morto. E enquanto o come, faz menção expressa a ele, seja javali ou alcachofra, e lembra de outros assassinatos e devorações anteriores, porque o prazer de comer deve vir acompanhado da memória de festins passados."
A descrição acima foi feita em 1990 pelo escritor espanhol Manuel Vásquez Montalbán (1930-2003), autor de "Contra los Gourmets" (sem tradução para o português).
Ótimo se prazer e palavrório se complementam, o último prolongando o primeiro. Mas, de lá para cá, muitas trufas brancas rolaram, e o pessoal se esqueceu de que o verbo não substitui a carne (ou o peixe ou o frango).


"Com a modernização da culinária e a hipervalorização da alta gastronomia, as pessoas estão ficando cada vez mais 'sofisticadas', mas cada vez mais chatas. Elas discutem o prato em vez de comer", diz André Barcinski, crítico da Folha e assumido "bom garfo".





A série, que parte para a terceira temporada, é uma sátira aos programas de culinária tradicionais e aos chavões da gourmelândia.

Na proposta do programa "nada de faisões, trufas ou fungos australianos (...) nem outras raridades psico-sofisti-palhaçadas de carinho." A culinária de guerrilha é feita de "clássicos" como yaksobra, sushi de feijoada e bolinho de miojo.

Após a estreia do programa, no final de 2008, Tiefenthaler conta que começou a ser parado na rua por todo o tipo de gente querendo dar a sua receita trash.

"Acho que as pessoas começaram a sair do armário. Me dizem que se sentem aliviadas vendo o programa, perdem a vergonha de não serem 'chiques'."

Mas a tropa de resistência aos modismos gastronômicos ainda terá de comer muito feijão e arroz até se impor.

"Estou escrevendo um cardápio para cliente e tenho que pôr 'tartelete de alho-poró mimoso'. Não posso sugerir: 'massinha com creme de milho'. Vê que humilhação tenho que passar?", diz Nina Horta, colunista da Folha e dona do bufê Ginger.

Segundo ela, apesar de uns poucos grandes cozinheiros ("no máximo 0,5%") fazendo comida nova e gostosa, os experimentos e supostas sofisticações já deram o que tinham que dar, para a maioria das pessoas.

JAVALI COM BLUEBERRY

"Essa comida não é minha nem de ninguém. Você já entrou na casa de sua vizinha e viu ela comendo javali com molho de blueberry e agrião doce?", pergunta Nina.

Ela arrisca uma teoria: "Parece que o sexo ficou uma coisa complicada, então, em vez de conversar sobre homem ou mulher, ficam falando de comida."

Nina não tem certeza se as pessoas preferem risoto com funghi chileno colhido na primavera a transar, mas está quase certa que muitos gostam é de se exibir.

Ela conta que, depois de entrar no Facebook, quase começou uma briga. O motivo foi um comentário na rede: "Alguém escreveu [no Facebook]: 'Que vontade de comer um peito de pato tomando um Chablis na beira do Sena'. Ai, que preguiça...".

Silvia Guimarães Couto, do restaurante Da Silvinha, se incomoda com esse papo. "Comida foi feita para você se alimentar e curtir. Mas fica todo mundo querendo ser francês e complicar. Já me perguntaram 'quem assina' minha comida. E olha que eu sirvo arroz, feijão e farofa."

FOOD VICTMS

Nina Horta diz estar cansada do que ela chama de "food victims", vítimas das modas gastronômicas.

"Desconfio sempre das modas. A nouvelle cuisine, cheia de frescuras, surgiu na época dos yuppies, que tinham muito dinheiro para gastar. Agora, se as coisas que as pessoas podem comer têm que ser mais baratas, vão começar a glamorizar outros tipos de comida. É um jeito de serem felizes com aquilo que têm."

Desse ponto de vista, a reação ao papo-gourmet não surge apenas porque as pessoas cansaram, mas também porque precisam gastar menos para sustentar o prazer.

A chef Heloisa Bacellar, do restaurante "Lá da Venda", acredita que não é só isso. "Há pessoas cansadas de afetação e arrogância, de gente dizendo que você tem que gostar de algo ou que você não pode gostar de, sei lá, estrogonofe, porque agora virou cafona."

Bacellar lembra que o movimento por "comida de verdade" está crescendo em vários países do mundo.

O problema é começarem a glamorizar demais a dobradinha, e você ser chamado de esnobe e fora de moda só por não gostar de tripas.

UM RESTAURANTE PARA QUEM CANSOU DE SER GOURMET

Características da cozinha ogra segundo o crítico (de cinema, não de culinária)
 André Barcinski

1 - Não pode ter nome começando por "Chez" ou terminando por "Bistrô";
2 - A comida precisa ocupar ao menos 85% da área total do prato (com preferência para iguarias com um taxa de ocupação de mais de 100% dos pratos, como bifes que caem pelas bordas dos pratos);
3 - Não pode ter "chef" e sim "cozinheiro". Não pode ter "menu", e sim "cardápio";
4 - Algumas palavras estão terminantemente proibidas nos cardápios: "nouvelle", "brûlée", "pupunha", "espuma", "lâmina", "lascas" e "contemporânea";
5 - Os garçons não podem ser modelos, manequins ou atores, com preferência para velhos e feios;
6 - Os garçons precisam passar no teste da colherzinha, que consiste em servir arroz com uma só mão, juntando duas colheres, sem derramar um grão sequer;
7 - Não pode ficar dentro de shopping center;
8 - O teste final: se o garçom, ao ser perguntado "o que é 'El Bulli'?", responder qualquer coisa que não seja "é onde eu sirvo o café", o restaurante está sumariamente eliminado.







Monday, 7 February 2011

TO BE OR NOT TO BE?


PÓS-GRADUAÇÃO 

Para inglês não ver

Com raríssimos cursos em inglês, Brasil deixa de receber alunos e docentes estrangeiros 

Adriano Vizoni/Folhapress
Paula Delgado não precisou falar a língua local quando fazia doutorado na Finlândia 

SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO 

A internacionalização do ensino superior brasileiro tem ganhado força nos últimos anos. Mas a língua portuguesa ainda é uma barreira na ida e vinda de estudantes e professores estrangeiros.
Isso porque a maioria das aulas e dos exames na pós-graduação por aqui é ministrada em português. O cenário é bem diferente de universidades de elite de países como Alemanha, Suécia e Finlândia, que não falam inglês como língua "mãe", mas têm aulas nesse idioma.
"Não encontrei resistências por não falar finlandês", conta a engenheira Paula Delgado, 30. Ela fez parte do seu doutorado no Centro de Pesquisa Técnica VTT em Espoo, na Finlândia, em 2006.
"Todos falavam inglês, mas ficavam contentes quando eu tentava aprender algo em finlandês", brinca.
Assim como ela, Viviane Alecrim, 29, que fez mestrado na Universidade de Ciências Aplicadas de Munique, também chegou à Alemanha sem falar a língua do país.
Apesar de a maioria dos professores serem alemães, conta, as aulas eram em inglês -o que permitiu que ela tivesse colegas de países como China, Tailândia e Irã.
No Brasil, o ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) já afirmou que a internacionalização é necessária para troca de experiências entre países e pode fortalecer a ciência nacional. "Defendo a ideia de atrairmos pesquisadores de excelência no exterior", disse à Folha.
Mas, por enquanto, as aulas em inglês estão por conta dos professores estrangeiros. Os brasileiros, parece, não cogitam dar aula em inglês.
"Em virtude do princípio de igualdade nas condições de acesso e permanência na escola, as aulas devem ser dadas em português. Ninguém é obrigado a falar outra língua que não a oficial", explica Nina Ranieri, advogada e professora da USP especialista em direito à educação.
"É uma postura provinciana, mas que tem fundamento. A oferta em inglês privilegiaria o acesso dos mais favorecidos", completa Ranieri.

INGLÊS NO LABORATÓRIO

Apesar da resistência nos corredores acadêmicos, a geneticista da USP Mayana Zatz prega -e pratica- a internacionalização e o uso corrente de inglês na universidade.
"Meus alunos escrevem artigos e a tese em inglês. Estamos tentando que os trabalhos também sejam apresentados em língua inglesa", conta a geneticista.
O biólogo alemão Mathias Weller, 44, hoje professor da UEPB (Universidade Estadual da Paraíba), concorda com a prática. Ele estava acostumado a falar inglês nos laboratórios da Alemanha, mas, no Brasil, teve de aprender português.
"Isso é um limitador. Há bons profissionais que gostariam de vir ao Brasil, mas não falam português", analisa.
Aula em inglês, no entanto, é só um dos passos da internacionalização. Para a engenheira de pesca Juliana Lima, 35, que fez doutorado na Alemanha, uma universidade bilíngue não está necessariamente preparada para receber estrangeiros. "Acolhimento também conta."

Não utilizar o inglês é arremessar-se para fora do mundoPDFImprimirE-mail
07-FEV-2011


IDIOMA EXERCE UMA ESPÉCIE DE IMPERIALISMO LINGUÍSTICO
HÉLIO SCHWARTSMAN - FOLHA DE S. PAULO
Há um quê de ideológico na resistência ao inglês. Os sinais são vários e vêm de diversas frentes.
Em 1999, o combativo deputado Aldo Rebelo, do PC do B paulista, apresentou um projeto de lei que, em sua versão original, bania todos os estrangeirismos (leia-se, anglicismos) da língua portuguesa e ainda obrigava brasileiros, natos e naturalizados, e pessoas de quaisquer nacionalidades residentes no país há mais de um ano a utilizar-se do vernáculo, sob pena de multas.
Uma versão desidratada da proposta foi aprovada em duas comissões e ela agora repousa prudentemente nos escaninhos do Congresso.
Mais êxito teve uma outra iniciativa legislativa que, irmanando ainda mais os povos da América Latina, ampliou o ensino do espanhol. É a lei nº 11.161/05, que obriga escolas públicas e privadas de ensino médio a oferecer o idioma de Cervantes como disciplina optativa.
Se se tratasse apenas de proporcionar aos jovens a oportunidade de aprender direito o idioma de nossos vizinhos, a norma seria inatacável. O problema é que, numa interpretação sistemática com o restante da legislação educacional, ela coloca o espanhol à frente do inglês.
A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) estipula, para o ciclo médio, o ensino, em caráter obrigatório, de uma língua estrangeira a ser definida pela comunidade escolar. Prevê também a inclusão de um segundo idioma, em caráter optativo, "dentro das disponibilidades da instituição".
A pegadinha está no fato de que a 11.161 fala abertamente no espanhol e se cala em relação ao inglês. As escolas sem grandes "disponibilidades", que devem ser a maioria, podem escolher a língua de Cervantes no lugar da de Shakespeare como o idioma moderno obrigatório, de modo a satisfazer as leis disponibilizando apenas uma língua estrangeira.
Ninguém é obrigado a gostar da primazia de que o inglês goza no mundo contemporâneo. Podemos ir até um pouco mais longe e reconhecer que esse idioma exerce uma espécie de imperialismo linguístico. Mas é preciso viver no mundo encantado de Che Guevara para não perceber que o inglês se tornou aquilo que o grego representava para o período helenístico e que o latim significava na Idade Média: o papel de língua veicular universal, na qual falantes dos mais variados idiomas conseguem se comunicar.
É em inglês que se fecham praticamente todos os grandes negócios internacionais, assim como é nessa língua que se registram os mais importantes avanços científicos. Não utilizá-la nesses campos equivale a arremessar-se para fora do mundo.
E os prejuízos de se afastar dos círculos de produção científica e não internacionalizar as universidades brasileiras superam em muito os de conviver com alguns "sales", "coffee breaks" e outros estrangeirismos de gosto duvidoso, dos quais a língua saberá livrar-se, se lhe dermos tempo suficiente.




Saturday, 5 February 2011

ENJOY LIFE, INSTEAD OF...


Não sei se o homem das cavernas tinha mais ou menos ansiedade que um sedentário de meia-idade


FERNANDA TORRES,  para  FOLHA ILUSTRADA, 05.02.11


NUNCA FUI corajosa. Depois do nascimento dos meus filhos, o instinto de preservação quintuplicou minha covardia latente. Lutei contra a natureza por quase 20 anos, mas a maternidade me venceu por completo.Li com inveja e espanto a notícia de uma mulher que desconhece o medo. A síndrome de Urbach-Wiethe destruiu sua amígdala, uma estrutura em forma de amêndoa situada no fundo do cérebro, e desarmou seus alertas internos de proteção e perigo. Seria isso uma benção ou uma danação? O fim do ano de 2010 foi especialmente difícil para mim e os meus. Mortes na família, doenças graves, decisões urgentes e infecções sorrateiras culminaram no funil esperançoso de Natal e Ano-Novo. O resultado foi um temor angustiado que virou o ano de mãos dadas comigo e se recusou a voltar a um nível tolerável depois de passadas as festas. O processo ansioso, cego e insistente, o choro que alimenta o choro, levou muitos amigos a me aconselharem uma visita a um psiquiatra. O nome que mais ouvi, antes mesmo do telefone de um especialista, foi o do milagroso Rivotril. A panaceia me foi descrita como um unguento milagroso, capaz de cortar a sinistrose pela raiz. Em "O Erro de Descartes" (Companhia das Letras, 336 pág., R$ 63), Antônio R. Damásio faz uma advertência contundente a respeito do uso indiscriminado de antidepressivos. Segundo o neurologista português, abrir mão da tristeza é dar adeus a uma das poderosas armas evolutivas responsáveis por manter a raça humana em estado de atenção. Anular a dor seria uma solução tão estranha quanto desligar o radar para não sofrer com a antecipação da tempestade. Eu não sei se o homem das cavernas, correndo diariamente o risco de ser devorado por uma besta-fera, tinha mais ou menos ansiedade do que um sedentário de meia-idade que assiste às infindáveis hecatombes cotidianas pela TV. Talvez a luz elétrica e o computador tenham nos trazido mais frustrações do que amparo, talvez as paúras de uma vida tão afastada da feroz mãe natureza só se aplaquem mesmo mediante o uso de medicamentos, não sei.
Eu sempre desconfiei das bulas reguladoras do humor; do humor, do sono e do apetite. E foi com tal desconfiança que me dirigi à psiquiatra, uma mulher inteligente de quem ouvi uma explicação bastante convincente para os efeitos benéficos que um antidepressivo, ou um ansiolítico, poderiam me trazer. O cérebro é um órgão dotado de uma impressionante capacidade de se remodelar. Graças à essa plasticidade, nos recuperamos de derrames graves, aprendemos a tocar instrumentos e agimos com rapidez diante de situações-limite. Os neurônios acionam novas sinapses, criam vias alternativas, ligam e religam circuitos conforme a necessidade. Mas a persistência de um estado melancólico, por exemplo, potencializa determinadas correntes neurais, fortalecendo uma rede funesta que impede o surgimento de novas saídas para o espírito. Como um rio sobrecarregado em uma enchente, a força das águas foge ao controle da própria vontade e deságua na chamada depressão. O remédio interditaria o pessimismo vicioso e daria chance ao cérebro de se rearticular. Convencida a derrubar a fundação do muro das lamentações, experimentei o famoso Rivotril pela primeira vez, adiando a investida no antidepressivo. Passei três dias sonolenta e algo abobalhada, evitei dirigir. No terceiro dia, desestimulada e apática, achei que estava pior que antes. Decidi não recorrer ao medicamento na quarta noite e tive dificuldade para dormir. Quando cogitei tomar uma gota do elixir para ir ao encontro de Morfeu, os sinos de emergência badalaram soltos sob a pele. Nunca tive problema de sono. Qualquer droga, lícita ou ilícita, que mexa com esse metabolismo me arrepia os cabelos. Fritei no lençol até cinco da matina. Passei o dia seguinte imprestável e, no outro, depois de uma noite bem dormida e sem sedativos, acordei refeita. O Rivotril me ajudou. Ele agiu como um elefante branco que a gente põe na sala e, no dia que tira, sente um alívio inaudito; mas não resolveu. Sem o auxílio da farmacêutica, recorri a um amigo que insiste em estar vivo há mais de 74 anos. "Finja! Crie um personagem e finja ser ele", me disse Domingos Oliveira. "Quem enfrenta a realidade enlouquece, a única saída para a sanidade é uma dose de alienação. A arte é a única saída possível." Não foi bem pela arte. Meu escapismo atendeu pelo nome de Fernando de Noronha. O mar, os bichos marinhos, o sol e a natureza agreste reverteram violentamente os fluídos da minha psique. Bem que a psiquiatra avisou que uma ação desse tipo também poderia dar certo.

Fernanda Torres  as Aurea. Photo by: Vantoen Pareira Jr., courtesy of Sony Pictures Classics, all right reserved.

WHAT A FUCK?


Dependência do Facebook preocupa 
mais do que vício em sexo e cigarro



Pesquisa aponta que a facilidade de acesso às redes sociais está criando um problema para muitos internautas
03 de Fevereiro de 2011 | 18:18h










Um levantamento realizado pela Internet Time Machine, empresa que busca tendências na web, mostrou que a dependência do Facebook é um dos assuntos mais procurados na internet, ficando acima das pesquisas sobre vício de sexo ou de cigarro.


De acordo com a empresa, a dependência de mídias sociais, especialmente do Facebook, está no topo do ranking de vícios digitais. Não à toa, um número crescente de pessoas procura formas de buscar ajuda.



“O aumento dos meios de comunicação e a necessidade de estar em contato com atualizações de status ou tweets, criou um problema para pessoas com personalidades aditivas”, divulgou a empresa no relatório. Além disso, o levantamento indica que a facilidade das pessoas acessarem as redes sociais em dispositivos móveis, tablets e, agora, até em televisão, alimentam ainda mais esse vício.



O estudo também revelou que no topo da lista de dependências, o maior vício ainda é o alcoolismo. As dependências de drogas como heroína e cocaína também se mantêm entre os primeiros lugares. Já o Facebook ficou no 16° do ranking, acima de outros inúmeros tipos de vícios. Para se ter ideia, as pessoas procuraram a frase “Dependência de Facebook” 121.8 milhões de vezes nos últimos dias.

Wednesday, 2 February 2011

AREN´T WE CRAZY ENOUGH?


Redes sociais enfrentam maré de ciberceticismo


Comunicação frenética on-line é forma de loucura, diz socióloga dos EUA



Sherry Turkle afirma que a tecnologia está ameaçando dominar nossas vidas e nos tornar menos humanos 

PAUL HARRIS
DO "GUARDIAN" 

O modo frenético como as pessoas se comunicam on-line por meio do Twitter, do Facebook e de mensagens instantâneas pode ser visto como uma forma de loucura moderna, de acordo com uma importante socióloga norte-americana.
"Um comportamento que se tornou comum ainda é capaz de expressar os problemas que outrora nos levaram a vê-lo como patológico", escreveu a professora do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) Sherry Turkle em seu novo livro, "Alone Together" (Sozinhos juntos, na tradução literal), que está liderando um ataque à era da informação.
A tese de Turkle é simples: a tecnologia está ameaçando dominar nossas vidas e nos tornar menos humanos. Sob a ilusão de permitir que nos comuniquemos melhor, ela nos isola das reais interações humanas por meio de uma realidade virtual que é uma imitação medíocre do mundo real. Mas o livro de Turkle está longe de ser o único nessa linha. A lista de ataques às mídias sociais é longa e vem de todos os cantos da academia e da cultura popular.
Em um recente best-seller norte-americano, "The Shallows" (Os Superficiais, na tradução livre), Nicholas Carr sugeriu que o uso de internet estava alterando o nosso modo de pensar a ponto de nos tornar menos capazes de absorver informações mais extensas e complexas, como as de livros e artigos de revistas. O livro baseou-se em um ensaio igualmente enfático que o pesquisador escreveu na revista "Atlantic" que trazia o título: "O Google está nos deixando estúpidos?"
Outra linha de pensamento na área de ciberceticismo encontra-se em "The Net Delusion" (A ilusão da rede), de Evgeny Morozov. Ele defende que as mídias sociais produziram uma geração de "passivistas", deixando as pessoas preguiçosas e criando nelas a ilusão de que clicar um mouse é uma forma de ativismo semelhante ao de doações em dinheiro e em tempo feitas no mundo real.
Outros livros são "The Dumbest Generation" (A geração mais idiota, na tradução literal), de Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory -no qual defende que "o futuro intelectual dos EUA parece ofuscado"-, e "We Have Met The Enemy" (Encontramos o inimigo), de Daniel Akst, que trata dos problemas de autocontrole no mundo moderno.
O livro de Turkle, porém, é o que tem inspirado mais polêmica. É um chamamento para deixarmos o BlackBerry fora do nosso alcance e ignorarmos o Facebook e o Twitter. "Nós inventamos tecnologias inspiradoras e sofisticadas, mas permitimos que elas nos diminuíssem", diz ela em seu livro.

EM DEFESA DAS REDES
Os defensores das redes sociais, por seu lado, dizem que o e-mail, o Twitter e o Facebook têm levado a mais comunicação, não a menos -especialmente entre as pessoas que poderiam ter dificuldade para se encontrar no mundo real por causa de grandes distâncias ou diferenças sociais.
As redes sociais são uma área nova e ainda é necessário criar normas e regras de etiqueta que possam ser respeitadas por todos os usuários, segundo disse William Kist, especialista na área de educação da Universidade Kent State, em Ohio.
Ele também salientou que o "mundo real" a que muitos críticos desfavoráveis às mídias sociais se referem nunca existiu de fato. Antes de as pessoas viajarem de ônibus ou de trem com a cabeça mergulhada em um iPad ou em um smartphone, elas normalmente viajavam em silêncio. "Nós não víamos as pessoas espontaneamente conversarem com estranhos.
Elas simplesmente se isolavam umas das outras", disse.




Tradução de FABIANO FLEURY DE SOUZA CAMPOS  

Fonte: Folha de S.Paulo

Saturday, 29 January 2011

YERUSSHALAIM - THE CITY OF PEACE!


Pelas ruas de Jerusalém  


     Após 19 séculos, Jerusalém (Yerushalaim – cidade da paz) voltou a ser a capital de Israel quando da criação do novo Estado. Uma das quatro cidades santas (as outras são ­Safede, Hebron e Tiberias), o misticismo que a envolve nos faz participar de um silencio reverente ao caminharmos pelas suas vielas seculares.

     Jerusalém dista de Tel-Aviv apenas 61 quilômetros e a estrada é circundada de eucaliptos (Trazidos da Austrália), pinheiros (do Canadá) e sobretudo por grandes plantações de laranjas, abacates e até bananeiras. Israel exporta em larga escala os seus produtos cítricos e flores para o mercado europeu, além da lapidação de diamantes que tem seu comércio mais acentuado e constitui a principal indústria de Netanya – cidade próxima de Tel-Aviv.

     A maior estação meteorológica do Oriente fica localizada á direita da estrada, à esquerda, logo à saída de Tel-Aviv, a cidadezinha de Ramla, com seu casario modesto, ao mesmo tempo em que passamos também por uma pequena comunidade Yemenita (os maiores dançarinos e artesãos de Israel).

     O Hotel Diplomat em Talpioth está quase oculto no final de um belo caminho florido que vai terminar numa arborização luxuriante e que torna o local pitoresco, pastoral, embora num flagrante contraste com as suas instalações luxuosas e modernas.

     Entre os hóspedes estão Lotte e Mollie. Ambas são turistas judias e moram no Brooklyn, em New York. Por demais comunicativas, gosto de sua aproximação que vem ao encontro da simpatia que me inspiraram no inicio. Lotte traz a mãe, uma velhinha adorável que se chama Clara.

     Mostraram-me os braços e cada uma tinha o número do campo de concentração onde estiveram: Bergen-Belsen e Auschwitz. Mollie era o número A-24.851 e Lotte A-8.276. Não obstante o tenebroso passado derramam uma alegria enorme e a única recordação de fogo que jamais poderão apagar são aqueles números, como uma chicotada de “Knut” na alma.

     Convidaram-me para conhecer o Muro das Lamentações e tomamos um guia para levar-nos a todos os lugares santos. Entramos pela Batei Mahse St., que conduz ao que resta do segundo templo. Lotte me estendeu um pequeno pedaço de papel e me disse para pedir por mim e meus amigos. Faço uma relação dos que consigo me lembrar e dobrando o “bilhetinho”, introduzo-o nas fendas do Muro. É esta a tradição entre os judeus que o visitam.

     Vejo milhares de papeizinhos incrustados nas gretas daquele local santificado. As mulheres, para rezar, tomam seu lugar à direita e os homens à esquerda, ficando separados apenas por uma grade baixa.

     Partimos em seguida para o Santo Sepulcro, subindo a Via Dolorosa que tem inicio naTorre Antonia e abrange a distancia de uns 500 metros. Tocamos no túmulo daquele que constituiu a base de uma das três grandes religiões que fazem com que Jerusalém seja considerada três vezes santa.

     A Via Dolorosa é estreita e melancólica e de ambos os lados proliferam lojas de artesanato em couro, peles e metais e quase todas são de árabes.

     Há rumor de prece no ar, enquanto um padre da Igreja Ortodoxa grega vela diante do túmulo. Turista vão entrando aos borbotões, acompanhados de seus guias que utilizam um “pot-pourri” de línguas para satisfazer a curiosidade de todos.

     No Sepulcro propriamente dito, só entram oito pessoas de cada vez, pois o espaço é restrito. Mais tarde dirigimo-nos ao Cenáculo (Sala da Última Ceia) que fica por cima doSarcófago de David. Logo descemos e divisamos o túmulo coberto com um pano de cetim vermelho e encimado por coroas de prata com rolo da Tora. Ouço os guias lembrar aos homens que cubram a cabeça bem como às mulheres que verifiquem se estão vestidas com decoro. Um dos turistas de tez trigueira e olhar vulturino protesta com veemência e se recusa a usar o “kepar”, a mitra judaica, dizendo-se cristão.

     O guia alvitra educadamente que é só por uma questão de respeito e que também não seria normal se ele, o guia, entrasse de chapéu numa igreja católica. O homem de olhar de abutre quase cria um caso ali, diante do lugar sagrado. De muito má vontade decide estender o lenço sobre a cabeça e assim fica resolvido o impasse.

     Jerusalém antiga é bela e tocante e oferece um contraste anacrônico com a moderna no lado ocidental e imponente sede do governo de Israel, pois aí é que ficam os edifícios públicos, como o Kinesset (Parlamento) que se destaca soberbo numa colina. Mais além o monumento símbolo: “Menorá” – enorme candelabro de sete braços.

     As revivescências amargas do aviltamento da pessoa humana, ou seja, as atrocidades praticadas contra judeus durante o nazismo estão em Yad Vashem, no Monte da Saudade, e expostas ali através de “pôsteres” gigantescos e fotos nítidas em cenas horripilantes de dantescas. Fujo daquilo tomado por uma depressão momentânea tão cruciante que me sinto meio judeu.

     Uma coisa é ler e ouvir sobre esse ou tal fato e outra é ver, embora através do documentário de um passado extinto, a comprovação de uma época das mais negras que a humanidade presenciou. Antes dispersos, acumularam-se no meu potencial afetivo, argumentos de passagem, talvez conceitos imediatos e precipitados sobre o povo israelita, mas ainda assim, sempre tocados de grande admiração.


     Agora, diante de tudo isso, cresce a admiração e a certeza de que realmente são o povo de Deus.

     O “Memorial Yad Vashem” tem no centro uma enorme pira que arde sem cessar e arderá eternamente em memória dos 6 milhões de vitimas que constituem a página vergonhosa da história contemporânea e que há de ficar na consciência dos povos que crêem num Deus.

     Ao redor, o nome de todos os campos de concentração e a quantidade numérica de imolados. Decididamente este não é um lugar em que se consiga ao menos sorrir ao se escutar a mais hilariante das piadas.

     O Museu de Israel é um conjunto que compreende o “Museu Nacional de Arte Bezalel”, o “Museu Bíblico e Arqueológico Samuel Bronfman” e o “Jardim da Arte de Billy Rose”, e é neste jardim aprazível que conseguimos suavizar um pouco a lembrança daquelas visões macabras.

     No “Shrine of the Book” (relicário do livro), que tem a forma redonda, ficamos admirando numa redoma uma cópia do livro de Isaias e no subsolo os pergaminhos dos manuscritos doMar Morto.

     Creio que precisamos divertir-nos muito esta noite para tentar anular aqueles momentos. É o que vamos fazer. Clara, a doce velhinha fica quieta no seu repouso no Hotel Diplomat. O “Khan Club” na David Remetz Sq. É uma espécie de caverna sombria toda construída de pedra bruta e parece mais um calabouço da idade média. O ambiente começa a esquentar com a chegada de um bando de turistas e gente do lugar: é fácil distinguir os nativos.

     Num palco improvisado ao pé das mesinhas toscas muito juntas, os cantores vêm apresentar suas canções de uma beleza tão pungente que desperta reminiscências nostálgicas. Observo as expressões fisionômicas de Lotte e Mollie a ver se vislumbro algum sinal de angustia, mas, qual, elas estão assanhadas e acompanham o coro cantando, também batendo palmas.

     Admirável povo este que consegue sepultar um tempo não muito remoto: o passado deAuschwitz e Bergen-Belsen.

     Anunciaram agora uma dança do folclore Yemenita e a leveza das figurinhas que surgem em trajes característicos e inebriam e enchem a alma. São perfeitas e sincronizadas nos seus movimentos de uma graciosidade sem par, não sugerem senão pensamentos de paz e amor.

     Consigo então, no ponto alto do espetáculo de danças folclóricas, reentrar na minha individualidade normal para sentir a beleza da noite artística.

     Saio reconfortado e Jerusalém parece já sonolenta, convidando-nos a voltar à cama macia do Hotel Diplomat.

     No outro dia, numa visita rápida, penetramos pelos corredores do Hospital Hadhassa com o objetivo único de atingirmos a sinagoga, onde estão as Doze Janelas de Chagal, cada uma delas representando uma das doze tribos de Israel. O pintor, que era judeu russo mas radicado em Paris, trabalhou vinte e sete meses nestas janelas que seriam um presente ao seu povo. Na verdade, elas refletem na policromia de seus vitrais a riqueza exuberante da arte de Chagal. Não é permitido fotografá-las.


     Nossa incursão pelas terras de Jerusalém não parou ai e até o cemitério militar foi visto e estranhamente não me deixou nenhuma depressão: achei-o até um recanto bucólico e agradável pela grama verdinha e bem cuidada e pelo arvoredo enflorescido a perder de vista.
     Por ultimo uma visita ao “Mea Shearim” – o bairro dos judeus ortodoxos – nos dá uma dimensão do seu radicalismo e agressividade contra o Sionismo: casas carcomidas pela sujeira e desgaste, muros batidos pelo sol dos séculos trazem em suas paredes frases como esta: “We are against Zionism”, “Zionism is not Judaism”.

     As roupas bizarras dão-lhes um aspecto sinistro e até as crianças que vimos transitando pelo bairro vestiam o horrendo casacão e calças negras, chapéu preto de abas largas ou e peles e os enormes cachos dependurados de cada lado das orelhas.

     São arredios e parecem nos olhar com desprezo ou desconfiança. Percebe-se que não desejam ser incomodados, tão pouco fotografados. O bairro é pobre e mal-cuidado e as lojinhas de quinquilharias quase sempre de uma porta só, o casal de velhos que nos atende numa delas não fala uma palavra de outro idioma a não ser o lidiche que usam na vida diária, sendo que o hebraico é reservado para as cerimônias religiosas.

     Por que teimam em permanecer herméticos e recolhidos ao seu mundo interior, tão estranhos na sua roupagem, parados no tempo como se vivessem ainda em plena idade média, sem se integrarem à vida hodierna?  Porque se revoltam contra o Sionismo que não é uma realidade política do momento, se teve sua origem muito antes da era cristã, quando os romanos ocuparam Jerusalém?

     A partir do século XIX os judeus retomaram a empreitada do restabelecimento de um estado autônomo na Palestina e que culminou com a criação do Estado de Israel, em 1948. Este é um problema a ser analisado, abrindo perspectivas para estudo e reflexão dos estudiosos da sociologia.

     Despeço-me de Jerusalém, ou melhor seria dizer-lhe: “leitra òt” (até logo) tamanho o desejo de retornar um dia para saboreá-la com mais vagar.
Belém é uma cidadezinha tranqüila que a gente fica conhecendo logo. Impregnada de poesia, nos sugere uma écloga (poesia pastoril) virgiliana. O interesse maior evidentemente é percorrer o lugar santo onde Jesus Cristo nasceu: foi lá edificada a Igreja da Natividade e, apesar de não nos transmitir a mesma imagem que conservamos da infância – a dos presépios onde o pequeno “Menino Jesus” estava sempre deitado entre palhinhas – ainda assim é com reverente unção que olhamos a estrela de prata plantada no chão que marca o ponto exato, segundo a tradição.



     Pela estrada poeirenta, numa quase reconstituição das páginas da Bíblia vão desfilando diante de nós pacientes jumentos que carregam no lombo árabes barrigudos com seus “khefiya” e albornozes ensebados. Um pouco além um pastorzinho apascenta as suas ovelhas que debalde procuram naquela aridez algum tenro raminho.



     As mulheres vêm e vão, caminhando lentamente, devido talvez ao estarem completamente cobertas por aquele véu – dissimulador de seus encantos, ou, quem sabe, escamoteador de suas imperfeições... Pareceu-nos que pelas aquelas paragens subdesenvolvidas a mulher ainda não abdicou da posição que a situa na família e na sociedade apenas como um veiculo destinado à procriação e aos trabalhos domésticos, além da cega obediência ao seu senhor, no caso, o marido.

     Em Hebron (aproximadamente 70 mil habitantes), bem próxima de Belém e segunda cidade santa para os judeus, mencionada até no Antigo Testamento, verificam-se os mesmos hábitos orientais, o mesmo ritmo de vida pacata e provinciana. É la que, na Gruta de Mahpela“habitam” os patriarcas Abraão, Jacob, Isaac, Sarah, Rebecca e Lia, num monumento pomposo.

     Não tivemos permissão para penetrar na Tumba dos Patriarcas e ficamos observando de fora a espécie de fortaleza.

     Na volta uma parada importante: é Rachel que dorme para sempre na estrada de Belém e o seu túmulo, em que estamos, lá ficou a recordar-nos a passagem bíblica de sua morte.

     Estou no alto dessa fortaleza tão cheia de significação para os judeus. Aliás, é difícil percorrer estes lugares todos e derramar a vista sobre estas colinas, estes mares e lagos, sem se tropeçar a cada passo na História Sagrada. Cada canto, cada rua, cada ruína guarda o vestígio das idades nos sinais de corrosão e injuria do tempo.

     Massada ressurgiu das escavações, trazendo para os arqueólogos poderosos subsídios científicos quanto aos aspectos da vida na época: lá foram encontradas 4 mil moedas e dezenas de outras em prata do período da Revolta, objetos de arte, arquitetura, cerâmicas, utensílios, fragmentos de rolo de papiro referentes ao Sagrado Templo e muitos outros manuscritos. Tudo isso veio lançar mais luz nas pesquisas históricas.

     Os Zelotes constituíam um partido judeu que não aceitava o jugo da dominação romana e foi em Massada que ficaram sitiados. Resistiram quanto puderam e eram apenas 960 pessoas entre homens, mulheres e crianças; quando o seu fim estava iminente, o líder reuniu todos propondo que se imolassem para não cair escravizados nas mãos dos romanos. E foi assim que cada um saiu massacrando a própria família e em seguida a si mesmo, restando então um único homem que, ao verificar bem se todos estavam realmente mortos, apanhou a espada e a mergulhou no próprio peito.

     Com os olhos da fantasia, “reconstituo” essas cenas que vão desfilando no écran (tela de cinema) da memória!

     Ao palmilharmos essa terra basáltica, pisando estes seixos que agridem os pés, mesmo calçados, talvez estejamos sobre uma plataforma que encerra nas suas profundezas os esqueletos dos 960 heróicos Zelotes, ainda não encontrados.

     Foi Herodes que decidiu construir a Fortaleza de Massada para preservar-se e aos seus do perigo e, segundo Josephus Flavius, o historiador, por dois motivos: o primeiro era que os judeus poderiam depô-lo e pôr outro rei no trono, e o segundo, por ainda, era o medo deCleópatra, a bela e não menos magnífica Rainha do Egito.

     As ruínas de seu Palácio estão ainda diante de nós evidenciando o luxo e o conforto de suas instalações: a grande piscina, a residência da família real que, segundo a planta, vimos ser o edifício numero doze, os armazéns, a casa de banhos, o columbário, as cisternas, as cozinhas; restos da Igreja Bizantina com um mosaico de desenhos em arabescos e asSinagogas, tudo isto atesta a magnificência de uma época.


     Lá embaixo um cenário de estranha beleza – o Mar Morto com suas águas quase imóveis, sem ondas, como um espelho refletindo a amplidão do céu tranqüilo.

     A escalada a Massada já se faz mais suavemente, pelo menos numa parte: um teleférico nos transporta até a primeira etapa e dali sobe-se na rocha, 80 degraus toscos, até atingir o enorme platô.

     Voltamos pela mesma estrada que atravessa o Deserto da Judéia. Não raro vêem-se algumas tendas de beduínos em repouso. Os seus camelos soltos vagueiam pachorrentos, mas de vez em quando quebram o silêncio, atroando os ares com seus bramidos.

     Do outro lado, o Mar Morto ladeia toda a estrada. Nenhuma vegetação em derredor senão a vastidão arenosa da Judéia e os depósitos salinos ao longo desse mar cuja água é sete vezes mais salgada que a de qualquer oceano. Ponto mais baixo na superfície da Terra (1.292 pés abaixo do nível do mar), apesar do nome, corre para restaurar a saúde dos mortais: sulfatos, carbonatos e vários cloretos dos reumáticos, artríticos, herpéticos,daí a razão de vermos dezenas de anciãos banhando-se nas suas águas miraculosas.

     A praia de Ein Ged é ponto obrigatório para turistas. Está coalhada de gente de todas as procedências e vejo em preparativos na areia alguns rapazes que se besuntam com uma lama quase tão escura como carvão antes de “flutuar” (é este o termo exato, pois não se afunda naquele enorme reservatório de sais).

     Qual a finalidade desta lama que lembra a de Araxá? A mesma é medicinal e restaura as forças, cura doenças da pele e outras, enfim, segundo depoimentos de uma dos enlameados, cura TUDO...
     Levo aos lábios algumas gotas de água do Mar Morto que paradoxalmente ajuda a viver e tenho que sair correndo para um bar próximo, a fim de dissipar o travo de fel que me fica na boca, tamanha a quantidade de sal.

     Depois de sentir na pele e no paladar aquela “salmoura” toda, apanho o ônibus de volta e meus olhos não cansam de observar através da janela panorâmica a paisagem agreste do Deserto.

     A primeira cidade que se avista é Arad, que não desperta muita atenção. Logo depois vemBersheva, que me pareceu mais cheia de vida e movimento.

     Lá atrás ficou Massada – símbolo do heroísmo e da coragem dos Zelotes. Nem religiões nem regimes através das idades podem mudar o caráter e o temperamento de um povo e este é o povo de Israel.

WALKING ON GOD PEOPLE´S LAND...


Israel – O Povo de Deus!  


     Meus olhos pousaram num passado de 4.000 anos, fizeram-me recuar no tempo e deram-me a dimensão da grandeza desta terra – Israel.

     De súbito uma aragem suave traz um cheiro penetrante que invade as narinas, um cheiro de terra adubada, sachada, inunda tudo: é a primeira impressão que se tem ao pisar Tel-Aviv.

     Quando digo terra, quero dizer que “isto” para os judeus é como se fosse mais importante que o próprio ar que respiram. Este cheiro de húmus fresco vem nos acompanhando pela estrada que passa pelo Aeroporto de Lod (Ben Guiron) – uma estrada muito bem sinalizada e iluminada a mercúrio.

     Eles tem agora uma terra que custou sofrimento e amarguras e que foi tão duramente reconquistada, mas que é o solo com que podem contar e onde deitar de novo suas raízes e cultuarem sua crença.

     Shalom é talvez a mais significativa das palavras e mais pronunciada pelos israelitas. Eles só aspiram à bendita Paz para que possam trabalhar e viver num canto seu, para que possam dizer como todo mundo, que já tem a sua pátria.

     Esta é a força telúrica que os mantém unidos na sua missão essencialmente histórica e espiritual perante o mundo.

     Falar de Israel poderá parecer assunto esgotado em termos de reportagem, porém, se se encarar a questão sob outro ângulo, com isenção do ponto de vista ideológico quanto à eterna dissensão entre árabes e judeus, prato diário dos jornais do mundo, torna-se cada vez mais fascinante escrever sobre Israel depois de ter presenciado o “milagre”.

     Este é, pois, um retrato fragmentado do país dos laranjais, num depoimento sincero e franco de quem o visitava pela primeira vez.

     A imagem que me ficou na retina é a de uma lembrança sentimental e amorável – sentimental pelo conhecimento de um povo sofrido, sensível e inteligente e que revela a sua hipersensibilidade até na música – um lamento de doces sons nostálgicos – tanto que suas canções sempre são escritas em tom menor.  

     A audácia é peculiar à juventude. Quem foi que disse isto ou qualquer coisa parecida? Não importa. O Sabra (israelita nascido em Israel) demonstra no olhar firme essa audácia, como se estivesse pronto (e creio que está) a desafiar o mundo para provar a sua condição de neonato num Estado que mal começa a engatinhar, mas que paradoxalmente foi estabelecido num dos locais mais antigos da terra.

     Conversando com alguns jovens percebe-se certa arrogância e orgulho até, ao comentar-se os acontecimentos do Entebbe. Queriam minha opinião. Claro que todo mundo sensato apoiou e vibrou com o episódio épico, quase rocambolesco de tão inverossímil que parecia.

     Os sabras não se entregam ao conformismo nem se rendem a um fatalismo estéril como o dos muçulmanos, que esperam pelo “paraíso” prometido por Mahomet onde as huris os aguardam...

     Sabra parece bem simbolizar o nascido no Estado pois é o nome de uma pequena fruta muito dura por fora mas doce por dentro.

     Muitos usam o chapeuzinho meio cômico, que é uma espécie de marca registrada e que chamam de “cova tenbel”, isto é, chapeuzinho bobo. De bobos é que nada têm. São, ao contrario, muito espertos e inteligentes.

     O primeiro passeio em Tel-Aviv foi a um bairro bastante afastado, mas muito pitoresco. Passando por Yafo (não a velha Yafo, ainda), o ônibus desceu toda a Yerushalaim Sderot, até atingir a esquina de Hart’s Rehovot.

     Vinha com uma incumbência do Brasil para uma pessoa que ali residia. A noite caía lentamente (a iluminação não favorece o bairro nem a entrada dos edifícios), daí ter-me enganado de numero, talvez. Os jardins à frente década prédio atrapalhavam mais ainda a entrada, e encontrar o número exato naquele emaranhado de plantas tornava-se tarefa difícil.

     Um grupo de garotos brincando na rua, apesar da quase escuridão. O bando se compunha de uns cinco, mais uma menina, somente uma menina. Todos muito falantes e o maior deles, que aparentava ter 13 ou 14 anos, muito espigado, de canelas finas como as de uma cegonha foi logo dizendo: Speak English?  Dei-lhes o nome de quem eu procurava e me levaram para ver nos quadros dos moradores, pois não havia porteiro. Tive que acender um isqueiro para que lessem os caracteres em hebraico, naturalmente. Muito excitados, nessa garrulice própria da infância em transição, quase brigavam para ver quem triunfava na “pesquisa”.

     A menininha do grupo só fazia sorrir e embora estivesse em meio aos garotos, parecia tímida. Não abriu a boca nenhuma vez.

     No 35, garantiram, não havia ninguém com aquele nome. Não seria no 33? Batemos para o 33. Assumiam ares de importância pelo inesperado que lhes conferia o encargo de guias turísticos. De fato, era no 33. Pularam de contentamento e percebi que, entre si, disputavam a primazia da descoberta.

     Nos bairros, geralmente edifícios de quatro andares não têm elevador e por isso os meninos ainda continuaram a sua missão de cicerones levando-me pelas escadas às escuras. O maior, pequeno líder em potencial, adiantou-se para se despedir e, ao fazê-lo, apontou-me a própria face com o indicador, pedindo um beijo. Fui beijando um a um e agradecendo: “todá rabá, todá rabá”. Quando chegou a vez da menina ela disparou pela escada abaixo, rindo sempre. Ah... Essa geração de sabrinas... (Existirá tal diminutivo?).


         Centro da vida cultural e política de Israel e a sua maior cidade, Tel-Aviv não é bela no sentido estético e arquitetônico. Como acontece com toda metrópole nova, os edifícios de linhas modernas e funcionais impessoalizam um pouco.

     O azul do mediterrâneo a enfeita e quebra a monotonia do pardo acinzentado das construções. As avenidas são amplas e arborizadas (o que não falta é árvore em Israel e é preciso ressaltar aqui o fato de que tudo era o desenvolvimento de um novo tempo).

     A Dizengof Rehovot (rua) é onde se concentra a população elegante e sofisticada. Lembra qualquer artéria das capitais européias onde os bares têm cadeiras nas calçadas. O comércio ali é também mais aprimorado e os magazines de moda exibem criações da alta costura.

     A inflação explodiu em Israel como em quase todos os países, porém se come bem sem se despender muitas liras. Considerando que o dólar valia LI 8,40, um almoço saía por três ou quatro dólares nos restaurantes comuns. Referi-mo a um almoço completo, com serviço, entrada, “piéce de résistence”, incluindo o refrigerante típico “Excoliót”, ou seja, “Grapefruit”.

     A cozinha israelense, me pareceu, sofreu influencia da russa e da árabe no que toca às especiarias: é bastante condimentada.

     Essa terra tão generosa hoje, prodigaliza uma abundância dos mais variados legumes que entram na composição das deliciosas saladas mistas: tomates enormes, repolhos, pimentões, beterrabas, pepino, cebolas e a berinjela, que é muito prestigiada, aparece em diversos pratos da cozinha judaica.

     Como os nossos populares botequins, lá também existem esses pequenos bares que expõem em vitrines nas calçadas as suas especialidades.

     Para quem não estiver com a bolsa bem provida, poderá comer um gostoso “falafel” metido num pão pita a guisa de sanduíche, acompanhado do Excoliót.

     Isto não quer dizer que Tel-Aviv não esteja dotada de restaurantes luxuosos com cozinha internacional, como por exemplo, o “La Barchetta”, na DizenGoff 362, cujas especialidades são camarões e lagostas, peixes e rãs. Ou ainda a Pizzaria Rimimi (só para citar dois), que oferece 20 qualidades de pizza (fica no número 93 da mesma rua). Descobri até um restaurante que anunciava “feijoada carioca”, e com um nome bem brasileiro: Baiúca, só que mal localizado, nos confins da Yehud Hayamit, em Yafo, completamente isolado e tendo por vizinhos apenas um departamento da alfândega. Não cheguei a verificar a autenticidade do nosso prato substancial porque encontrei o estabelecimento fechado (só reabriria às 19 horas).
     Desisti da feijoada, embora tivesse certa curiosidade de saber se a proporcionavam com todos os complementos necessários.

     Surge um problema no “Sabbat” para o turista desavisado. É o dia santo de guarda do judeu e a partir das 15h05min de sexta-feira até sábado às 17h55min a cidade dorme, ou melhor, morre condicionalmente. Cessam os ônibus, principal meio de transporte, mesmo os táxis-lotação em que cabem sete pessoas e que denominam “sherub” desaparecem. O comércio cerra as portas, cinemas, teatros, restaurantes e bares, inclusive.

     Dificilmente se encontrará um táxi para qualquer ponto da cidade. Os bares que permanecem abertos (raros) são de árabes.

     Domingo ela ressuscita e o dia decorre normalmente como qualquer outro da semana. NaAllenbey Street 59 encontra-se, porém, o Tavi Akol (de judeus) que fica aberto aos sábados.

     Nos outros dias, para uma excelente refeição, pode-se ir também à Bem Yahuda 38, deBroina, a polonesa.

     Broina merece quase um capitulo a parte. Fiquei conhecendo através de duas judias do Brooklyn, suas primas. Foi a única pessoa que encontrei em Israel que refletia no rosto, no todo de sua aparência esquálida, os horrores por que passou na sua Polonia heróica, por ocasião do nazismo.

     Parece boa criatura, embora não pudéssemos manter uma comunicação maior, pois não falava uma palavra que não o hebraico e o polonês. Figura estranha, conserva sua dignidade de ser humano e está de pé para cumprir a obrigação de existir, mas não vive mais, é esta a impressão que nos transmite. Os olhos profundamente encravados nas órbitas parecem enxergar algo que ninguém mais vê, somente ela.

     Prossegue, solitária, com o seu modesto restaurante e às vezes senta-se em uma das mesas vazias para conferir seu “rico dinheirinho” que leva numa bolsa velha apertada debaixo do braço.

     Que pensamentos lúgubres carrega Bronia, de aparência fantasmagórica e ares de musa da tragédia? No seu restaurante o preço é fixo. Apenas 20 liras para um jantar completo, inclusive a deliciosa sopa “borshi”, ou outras variadas.

     O judeu nunca perdeu a sua individualidade característica e todos, em pensamento uníssono, sonhavam com a volta à sua terra. Jamais perderam a esperança no dia da remissão. Acolhidos por outros países, permanecem judeus, entretanto, embora assimilando a cultura, os hábitos e as leis desses países. É por isso que é muito fácil encontrar quem fale dois, três idiomas.
     Ocorre-me aqui uma frase do inimitável Eça de Queiroz: “O cosmopolitismo do verbo, irremediavelmente, dá o cosmopolitismo do caráter, por isso, o poliglota nunca é patriota”. Isso vem a dar quase no aforismo latino: “ubi bene, ibi patria”.

     É necessário considerar, porém, que o “globe trotter” sabe que tem para onde voltar quando cansar de suas andanças e é esta talvez a razão de não se preocupar tanto com seu país de origem.

     Já o judeu saiu pelo mundo não “bien pour s’ammuser” e sim porque fora miseravelmente escorraçado de sua terra e espoliado de seus bens.

     Israel é agora uma realidade fascinante e miraculosa no seu contexto humano e social. Todos trabalham para o bem comum, todos esperam pela paz definitiva, embora vivam cercados de todos os lados pelos ferrenhos inimigos – os árabes. Não se podia sair de Israel por terra porque os “lobos” espreitavam, prontos para se atirarem à presa valiosa.

     Desconfio que esta animosidade para com o judeu é uma questão também de invídia (sejamos benevolentes usando este vocábulo poético); o árabe não possui a mesma inteligência nem o mesmo espírito empreendedor capaz de transformar um deserto numa maravilha das “mil e uma noites”.

     Não se perdoa facilmente aquele que conseguiu ascender sobre o comum dos demais.
     Tenho uma calça para mudar o zíper e saio à procura de alguma oficina de reparos, alguma costureira de emergência. Bem próximo ao hotel vejo uma, entro, ou melhor, desço, pois a oficina fica no subsolo de uma velha casa.

     Um casal de velhos sorridentes vem me atender. Yetti e Moshe são encantadores. Ela fala cinco idiomas, incluindo o russo. Ele é ucraniano e ela polonesa. Daí p’ra frente se passo pela sua porta, sou obrigado a entrar para dois dedos de prosa e tomar chá ou pelo menos um copo de Excoliót.

     Contam da unia filha, morta em Vilna, mostram retratos do neto, hoje médico residente nos Estados Unidos, vão desfilando casos, pitorescos uns, tristes outros, de suas vidas de sofrimento e opróbrio durante o nazismo até vir encontrar o sossego a dois nesta exuberante Tel-Aviv. Ao se despedir, beijam-me carinhosamente as faces.

     Como toda cidade que cresce e adquire foros de metrópole, esta também tem suas mazelas, o submundo do lumpen-proletariado. No “red light district”, junto às raias do Mediterrâneo, as luzinhas vermelhas começam a piscar ao por do sol. A “Zoná” (prostituta, em hebraico) como em qualquer parte do mundo, exibe a mercadoria bem à vista, no caso o seu próprio corpo, à espera do cliente em potencial. As que vi não eram belas nem tão jovens. Quando tentei fotografar algumas protestaram com veemência e armaram uma bulha tão estridente na sua algaravia que desisti e bati em retirada. Tive a impressão de que me atiravam impropérios em árabe, hebraico e sei mais o quê.

     Mendigos vi, mas poucos e velhos. Um em especial chamou-me a atenção porque andava sempre acompanhado de um punhado de trastes e de seu fiel companheiro de desdita – um vira-latas amarelo e arrepiado, mas suficientemente bem tratado para cachorro de mendigo. Fazia “ponto” na esquina de Carmel Market, na rua do mesmo nome. O Carmel Market é uma espécie de feira variada, mas não tão grande como a outra que chamam de Mercado das Pulgas (Shuk Hapishpeschim) e que não pode rivalizar-se com seu homônimo de Paris. Entretanto tem muita cor local e o artesanato é aprimorado e original.

     Um programa que o turista certamente apreciará é o de visitar o edifício mais alto de Tel-Aviv: Shalom Tower (38 andares) pela vista panorâmica que proporciona do seu terraço: pode-se ver toda a cidade banhada pelo Mediterrâneo sempre azul e, já esfumados pela distância, alguns contornos de Jerusalém. M todos os andares há lojas de moda, brinquedos, diversões infantis e um museu de cera bem menor que o Madame Tusseaud de Londres, mas igualmente impressionante pela perfeição com que compuseram as cenas que representam personagens da história de Israel.

     O povo é espirituoso, extrovertido e quase, poderia dizer, de temperamento latino e barulhento. Nos ônibus, a pressa na hora do “rush” lembra a nossa correria depois da luta diária. Alguns mais afoitos gritam quando o motorista dá arrancada: “rega, rega”, o que quer dizer em hebraico: “espera, calma!”.

     Sabe-se que uma ameaça paira no ar a julgar pelos “lobos” do outro lado das fronteiras, mas ninguém, pelo menos aparentemente, vive a situação à sombra de uma neurose.

     Vivem sim, as 24 horas intensamente,trabalham e se divertem como todo mundo. A única marca da guerra são as carcaças de caminhões e tanques espalhadas dos lados da estrada que liga Tel-Aviv á Jerusalém, como a querer fixar na memória das pessoas a lembrança sinistra dos seis dias.     
     O tempo tem se portado bem. Com exceção de um dia destes, somente um dia, graças á Deus. É que passou por aqui aquele vento morno e seco que chamam de “hamtzim”. Um calor sufocante e uma fornalha do inferno quebranta a resistência da gente e dá uma espécie de letargo mental. Sopra do oriente para o ocidente e informaram-me que não é fenômeno muito comum, chegando ao término da primavera e estamos no outono.

     Yafo, uma espécie de satélite de Tel-Aviv é um vivo contraste diante da cidade moderna que brotou do deserto. A antiga Jaffa é uma das cidades mais antigas do mundo e, segundo a lenda, foi lá que o borracho Noé construiu a sua arca.

     Yafo tornou-se uma capital artística de Tel-Aviv, tamanho o número de galerias de arte e artistas em pleno labor. Suas vielas tortuosas, suas mesquitas e casas em estilo árabe transmitem a impressão real do Oriente dos cenários de Hollywood. A vida noturna é intensa e os cabaré e boates regurgitam de turistas e boêmios locais. A atmosfera é a de sempre: penumbra, conjuntos de música moderna e nostálgica, shows com vedetes esculturais e... preços salgados como o Mar Morto.

         Uma passagem por aquelas paragens durante o dia pode ainda proporcionar situações insólitas como as de um enterro que presenciei: um soar de tambores em ritmo lento e fúnebre enchia o ar naquela tarde morna. A garotada que saía de uma escola das proximidades começou a alvoroçar-se e a subir nos bancos das calçadas (existem bancos coloridos de espaço a espaço por toda a Tel-Aviv e Yafo). Os guardas começam a desviar o transito. A curiosidade açulada 9estimulada), resolvi conseguir um cantinho num banco para aguardar a “coisa”.

     O que seria? Alguma procissão? Alguma propaganda? Num crescendo assustador os sons aumentaram de mistura agora a uma cantilena ininteligível e monótona. Surgiu então um cortejo estranho e á frente um jovem sustentava no alto a tampa de um caixão tosco de madeira. Dos lados, dois rapazes carregavam archotes e mais atrás o grupo que tocava tambores, mas estes, surpreendentemente, eram moças! Bandeiras negras com legendas em árabe, coroas de flores naturais também com fitas pretas escritas em branco no mesmo idioma, e o padre, cujas vestes me deram logo a perceber que era o rito do maronita. No final, o defunto aparecia a descoberto no caixão sem tampa, suspenso nas palmas das mãos de inúmeros rapazes.

     À noite, em Tel-Aviv, sabia-se pelo noticiário que um jovem árabe fora assassinado por ouro na noite anterior em Yafo, por questões de drogas. Seria aquele o defunto da noticia?

     Quando assestei a digital para uma foto do enterro maronita, verifiquei com pesar que a  bateria  tinha acabado.  

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I am one of those guys with a fat address book - maybe because all my friends tell I'm charming and clever! But as far as I´m concerned, friendship is a club of seven people which was fully by the time I was 25. We all share the same interests, and we don´t make any demands on one another in emotional terms - which is something I would avoid like the plague. It´s not that I don´t like making new friends easily...They have to cativate me at first...We all grew up in the same social, professional and geographical world that we now occupy as adults. The group of seven offers me as much security and intimacy as I require!