Wednesday, 22 September 2010

AMAZING SCIENCE, WONDERFUL MINDS...


Um ataque direto e poderoso às doenças!


Surgem novas terapias criadas com recursos da nanotecnologia.

 Elas já curam câncer de pele e prometem maior eficácia contra a

 diabetes. É o comeco de uma nova era na medicina

Rachel Costa, para ISTOÉ magazine

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Há uma revolução invísivel na medicina. As protagonistas dessa mudança são estruturas minúsculas, cerca de 90 mil vezes menores do que um fio de cabelo, conhecidas por nanopartículas. De tão pequenas, são visíveis apenas com a ajuda de microscópios ultrapotentes. Do mesmo modo que as famosas células-tronco, elas são responsáveis por avanços impressionantes nos tratamentos. Sem sombra de dúvida, pode-se afirmar que são um dos pilares de sustentação da medicina do século XXI. E o que é melhor: as pesquisas em nanobiotecnologia, como é chamado esse novo campo de estudo, se encontram em estágio avançado e começam a dar frutos. Um levantamento da agência internacional Thomson Reuters mostrou que, só no ano passado, foram requeridas no mundo mais de 300 patentes de produtos relacionados à saúde envolvendo nanotecnologia. O crescimento dessa área motivou o FDA, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a criar um grupo exclusivo para regulamentar os lançamentos que incorporam essa tecnologia. 

A razão do sucesso das nanopartículas está nas potencialidades que surgem quando uma molécula maior é submetida a sucessivos processos para reduzir seu tamanho. Podem, por exemplo, se tornar mais resistentes ou adquirir a capacidade de conduzir eletricidade. São justamente qualidades como essas que têm sido exploradas por centros de pesquisa e pela indústria farmacêutica. O propósito é criar formas inéditas de levar medicamentos diretamente até as células doentes, além de testes diagnósticos mais sensíveis. Como mísseis teleguiados, programados para detonar apenas quando chegam ao alvo, as nanopartículas são capazes de direcionar os fármacos às regiões atingidas pelas enfermidades, amenizando a intensidade dos efeitos colaterais e o desperdício do medicamento no organismo – dois problemas comuns nas terapias convencionais. Essa precisão torna possível usar doses maiores da droga, reduzindo o tempo de tratamento. É uma revolução que já apresenta resultados concretos no tratamento de doenças como a hepatite C e o tipo de câncer de pele mais comum. Também está trazendo avanços promissores para enfermidades de grande alcance, como a diabetes e o acúmulo de placas de gordura nas veias.

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As versões nanoestruturadas de medicamentos convencionais têm se mostrado eficazes para a terapia de algumas doenças graves. Uma delas é a leishmaniose visceral, mal parasitário que destrói fígado e rins, entre outros danos, e pode ser fatal. Neste caso, a principal vantagem do remédio com nanopartículas é a redução do tempo de internação e dos efeitos colaterais. A droga (Ambisome) está disponível no Brasil, assim como a formulação nano do remédio para o tratamento do sarcoma de Kaposi (tumor maligno do sistema linfático que ocorre em pacientes com Aids), chamado Daunoxome. Há também medicamento nano para hepatice C (Pegasys) e anemia de origem renal (Mircera). “Quem usa os remédios nanoestruturados pode sair da quimioterapia e ir direto para o trabalho, sem sentir enjoos. Eles oferecem realmente menos efeitos colaterais”, diz Ana Luiza Toscano, supervisora da quimioterapia do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. No caso da hepatite C, a nano facilita a adesão ao tratamento. Enquanto o interferon normal deve ser aplicado a cada dois dias, o produto com nanotecnologia é ministrado uma vez por semana. O empresário Rubens Victor Santos, 55 anos, de São Paulo, usou as duas formas. “A terapia com o nanoestruturado é mais cômoda e as reações foram um pouco mais suaves”, diz.

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SEM CIRURGIA
O câncer de pele de Cid foi curado com uma pomada
nanoestruturada e banhos de luz
 

Se depender do volume de pesquisas, em breve haverá uma nova safra de remédios nanotecnológicos. Uma das áreas mais beneficiadas será a oncológica. A equipe da pesquisadora Eva Marie Harth, que faz parte de um grupo que engloba cientistas das universidades americanas de Washington, Emory e Vanderbilt, trabalha no desenvolvimento de uma nanoesponja, estrutura de poliéster do tamanho aproximado de um vírus, que recebe em suas paredes algumas substâncias que se ligam apenas às células tumorais. Em testes com animais, foram obtidos resultados de três a cinco vezes mais eficazes do que os tratamentos tradicionais para o câncer. “Com as nanoestruturas, é possível administrar o fármaco apenas onde se encontra o tumor, poupando os demais órgãos e tecidos”, disse Eva Marie à ISTOÉ. De fato, um dos maiores problemas da quimioterapia é que os fármacos capazes de destruir as células tumorais são muito tóxicos para todo o conjunto celular, causando diversos efeitos colaterais.

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PRODUÇÃO 
Remédio nano é fabricado em centro 
de alta tecnologia na Alemanha

Outras opções para determinar onde a droga irá agir são as terapias fotodinâmicas e o uso de ondas magnéticas. Na primeira, o medicamento só age quando exposto a um tipo de luz. Na segunda, um campo magnético é gerado na área a ser tratada, atraindo as nanopartículas para a região. Foi por meio do tratamento com luz que o engenheiro Agustin Gonzalez Cid, 67 anos, de Barueri (SP), se curou de um câncer de pele do tipo não melanoma, o mais comum dos tumores de pele. “Os médicos passaram um creme na região afetada e, depois de duas horas, aplicaram luz vermelha”, conta.

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Sucesso na cosmética

Foi a partir do uso  em produtos cosméticos que a nanotecnologia ficou mais conhecida. O motivo para a sua vasta aplicação nesse segmento é a eterna batalha dos fabricantes para os produtos chegarem às camadas mais profundas da pele. 
“A maioria dos princípios ativos dos cosméticos não atravessa a pele por causa da barreira protetora existente na sua camada superficial”, constata Bartira Bergmann, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
Na tentativa de vencer a proteção natural do organismo, a indústria da beleza introduziu em suas formulações as nanoesferas es lipossomas. “Elas são capazes de cruzar a primeira camada da pele e atingir a derme, em que são produzidos o colágeno e a elastina, substâncias que dão firmeza e sustentação. Isso melhora a ação dos produtos”, diz Bartira. Recentemente, a indústria nacional lançou filtros solares nano e estuda linhas anti-idade e acne. 

A terapia ministrada em Cid foi criada no Brasil pela equipe do químico Antonio Claudio Tedesco, do Centro de Nanotecnologia, Terapia Fotodinâmica e Engenharia Tecidual da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto. Entre as vantagens, o procedimento é mais rápido, mais barato e menos agressivo do que a cirurgia para a retirada do tumor, que é a solução convencional. Atualmente, esse tratamento já pode ser feito em ambulatórios de São Paulo e Brasília e, até o fim do ano, chegará a Belém (PA) e a Rio Branco (AC). O grupo agora está pesquisando formas de usar o mesmo procedimento contra tumores na bexiga, próstata e útero. O grupo de Ribeirão Preto também criou uma pomada com nanocompostos para eliminar cáries e infecções na gengiva. “Ela mata as bactérias da cárie sem a necessidade de usar o motor para desgastar o dente”, explica o químico Tedesco. Como o produto usado na terapia dos tumores de pele, a pomada anticáries só entra em ação depois de ser bombardeada com luz vermelha. 

Doenças de grande alcance, como a arterosclerose (provoca entupimento dos vasos e artérias, causa de infartos e derrames) também poderão colher frutos da nanomedicina. No Hospital da Criança da Filadélfia, nos Estados Unidos, os pesquisadores criaram uma nova geração de stents, que são pequenas próteses metálicas usadas para manter veias e artérias abertas e, desse modo, impedir a obstrução do fluxo sanguíneo. No novo produto, é possível repor as doses do medicamento contido no seu interior, o que evita o acúmulo de placas no dispositivo. “Ainda estamos testando em animais, mas o procedimento tem se mostrado eficiente”, disse à ISTOÉ o cardiologista Robert Levy, um dos líderes do estudo. Já na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, uma nanomolécula simulando as características do HDL, a fração boa do colesterol, promete varrer do interior das artérias as placas de gordura que podem causar obstruções.

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No Brasil, o laboratório Cristália está concluindo os estudos de uma anestesia de longa duração e de uma nanoestrutura para potencializar o efeito das vacinas. Há boas promessas também no tratamento de doenças cerebrais degenerativas, como Alzheimer e Parkinson. “A grande vantagem é que a associação de nanoestruturas aos remédios permite atravessar barreiras que os medicamentos atuais não vencem, chegando ao interior das células cerebrais”, diz Tedesco. No Canadá, o foco dos cientistas da Universidade de Calgary é a criação de uma vacina com nanopartículas contra a diabetes tipo 1. A doença surge quando o sistema imunológico começa a destruir por engano as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. A vacina ajuda o organismo a produzir algumas partículas que atacam essas células que estão trabalhando de forma equivocada. “As nanoestruturas guiam a droga e garantem que ela fique mais tempo no organismo, sem se degradar”, disse à ISTOÉ Pere Santamaria, coordenador do estudo. A vacina foi testada com sucesso em ratos e a equipe espera usar o mesmo princípio para outras doenças autoimunes. 

Até as fraturas de ossos poderão ser mais bem cuidadas graças às pesquisas em nanotecnologia. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o professor Anderson Ferreira está empenhado em combinar nanotubos a doses de ácido hialurônico – substância muito usada por dermatologistas no rejuvenescimento da pele. Os nanotubos são estruturas minúsculas e super-resistentes, feitas de carbono, usadas para levar o ácido hialurônico até a região danificada dos ossos. Seu objetivo é promover a cicatrização e a regeneração óssea. E ele está no caminho certo. Testes realizados em animais deram ótimos resultados.

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Outra vertente importante para a medicina é a aplicação da nova tecnologia aos diagnósticos. Neste caso, o aumento de precisão trazido pelas nanomoléculas faz enorme diferença. Pesquisadores da Northwestern University, em Chicago, aprimoraram o teste para identificar tumores de próstata. Com a nanotecnologia, ele ficou 300 vezes mais sensível. O exame encontra no organismo indícios de uma proteína associada ao tumor. “Ele permite ver, prematuramente, se há chance de esse câncer voltar”, disse à ISTOÉ o urologista Shad Thaxton, um dos responsáveis pela pesquisa. Outros testes em desenvolvimento, para rastrear o câncer de próstata e de ovário, se utilizam de marcadores radiativos. “Quando as nanopartículas juntam-se às paredes das células doentes é possível ver as substâncias radioativas que carregam, por meio de aparelhos de detecção já existentes atualmente nos hospitais”, diz Mônica de Oliveira, da Rede Mineira de Pesquisas em Nanobiotecnologia.

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DIFERENÇA
Santos recebeu doses do interferon
na versão nano contra a hepatite C: reações mais suaves
É no desenvolvimento de testes mais precisos que atua um dos mais renomados cientistas dessa área, Xiaohu Gao, da Universidade de Washington. Ele e sua equipe trabalham com a inovadora proposta de criar nanoestruturas com várias funções. Em seu laboratório, elas recebem um fio de ouro e são recheadas com óxido de ferro. “Essa combinação permite enxergar células cancerígenas que não seriam detectadas por nenhum outro teste conhecido”, disse Gao à ISTOÉ. No seu invento, o ouro aumenta o contraste e a precisão das imagens diagnósticas. Já o óxido de ferro, sob ação de um aparelho de ondas eletromagnéticas, faz as nanopartículas se agitarem. Como elas têm características que as faz grudar-se aos tumores, o especialista consegue ver lesões iniciais observando as células que se movimentam. Os testes de Gao estão sendo avaliados em animais. 

A presença dos nanocomponentes também está deixando mais precisos equipamentos como microscópios e câmeras usadas em cirurgias. “Um dia chegaremos aos nanorrobôs”, prevê Marcos Pinotti Barbosa, coordenador do Laboratório de Bioengenharia da UFMG. “Implantados na corrente sanguínea, eles agirão como soldados inteligentes. Em uma missão destruirão um inimigo e, no dia seguinte, outro”, diz ele. Com a rápida evolução das pesquisas em escala nano, isso poderá se tornar realidade num futuro não muito distante.





PAYING FOR LIVING IN A BIG CITY!

Como problemas das metrópoles afetam o dia a dia dos cidadãos?

Pelas histórias de sete personagens da metrópole que se interligam em um mesmo endereço, a Avenida Paulista, é possível entender a relação de problemas aparentemente tão diferentes entre si, como mobilidade, estresse, violência e habitação.

Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S.Paulo


Para entender os problemas da metrópole, basta parar para escutá-la. E não é preciso percorrê-la toda. Numa única travessia da Avenida Paulista, é possível encontrar quem enfrente os males causados por décadas de crescimento desordenado e falta de planejamento.

Pelas palavras do porteiro do condomínio, entende-se o que é viver 28 anos no mesmo bairro sem nunca ter tido acesso a água encanada e a esgoto tratado. O faxineiro da empresa conta como a família cresceu e cresceu - mas o apinhado barraco continuou igual. O analista mudou de casa, traumatizado por um assalto violento. E a administradora acha que tanto trânsito, pressão e falta de tempo ainda a farão sofrer um enfarte.
"Os problemas das metrópoles não escolhem padrão social. Todos já encararam violência, trânsito, poluição", resume o urbanista Kazuo Nakano, do Instituto Pólis. "Mas é nos centros desenvolvidos que se reúnem diferentes perfis. O perverso é que, após passar o dia em locais urbanizados, os que mais sofrem voltam para casa e encaram problema pior. É a desigualdade esfregada na cara."
Abaixo, moradores de São Paulo que convivem, dia após dia, com os problemas de viver numa região metropolitana.
Vanderlei: 40 anos no meio da poluição
Foi na década de 1970 que Vanderlei Soares dos Santos, de 62 anos, começou a trabalhar na Avenida Paulista como ajudante em banca de revistas. Quase 40 anos se passaram e lá continua o Vanderlei, ainda trabalhando em banca - e vivendo diariamente um mesmo fenômeno no fim da tarde: o ar fica carregado e a banca, esfumaçada. Com tanta poluição, problema comum a todas as metrópoles do País, Vanderlei tosse.
"Nunca foi melhor. Na verdade, só piorou", lamenta o ajudante, que trabalha ao lado do ponto de ônibus mais movimentado da Paulista, na esquina com a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. A princípio causada pela fumaça das fábricas, hoje a poluição das metrópoles vem principalmente dos veículos.
Estudo do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP elaborado em 2009 mostrou que, das nove regiões metropolitanas do País, seis (Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre) têm ar com qualidade inferior ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde. "No fim do dia, tenho a garganta irritada, os olhos vermelhos e fico cansado", conta Vanderlei.
Ele não fuma, mas é como se tragasse três cigarros por dia. Assim, suas chances de ter câncer de pulmão são 15% maiores. Os riscos de sofrer com pressão alta, arritmia cardíaca e arteriosclerose também aumentam.
De 40% a 60% da poluição gerada nas metrópoles é causada pela queima de óleo diesel. Uma forma de minimizar o problema, portanto, seria exigir melhorias no produto. Havia resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente prevendo melhor qualidade do diesel a partir de janeiro de 2009. Uma alteração, porém, mudou o prazo para 2012 em São Paulo e 2014 nas outras metrópoles.
Edson: sete pessoas em um só barraco
No quarto de 10 metros quadrados, uma cama e um colchão para quatro pessoas. No outro cômodo, entre os móveis de sala e cozinha, mais uma cama - outras três pessoas vivem ali. No precário barraco, moram o faxineiro Edson Teles, a mulher, a filha, a mãe, o irmão, a cunhada, o sobrinho. A situação é descrita por ele como "de amontoado".
"Há 20 anos moramos aqui. A família cresceu, mas as condições não melhoraram. Nem a situação do bairro", contou Edson, de 35 anos, morador do loteamento irregular de Santana do Agreste, no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo. Em casas irregulares, sem esgoto tratado e com ligações telefônicas clandestinas, vivem 3,5 mil pessoas.
Edson enfrenta também problemas de infraestrutura e transporte - característica dos chamados "bairros-dormitório", distantes até 30 quilômetros dos centros urbanos. "Caminhão de lixo não chega, não tem emprego perto e o transporte é horrível."
Como Edson, há 4,4 milhões de brasileiros vivendo em habitações precárias e improvisadas, segundo estudo de déficit habitacional do Ministério das Cidades divulgado em 1º de setembro. Outros 18 milhões vivem em casas que não comportam o número de pessoas que abrigam. O estudo apontou que 27,6% (ou 1,5 milhão) das casas problemáticas ficam nas metrópoles.
E o problema não é exatamente falta de moradia: só em regiões metropolitanas há 1,9 milhão de casas vagas (no País todo, são 7,2 milhões). "Em todas as metrópoles, os centros esvaziam e as periferias incham", disse a arquiteta Ermínia Maricato, do Laboratório de Habitação da USP. "É preciso trazer a população para os centros, o que diminuirá a expansão das periferias."
Gilmar: em pé no ônibus 4 horas por dia
São quatro horas diárias no ônibus, sacolejando em pé por 22 quilômetros ida e volta, entre a casa no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e o trabalho como segurança na Avenida Paulista. Gilmar Oliveira, de 62 anos, está cansado. "Ônibus todo dia, trânsito que não anda. É encostar na janela e chorar." Ele poderia tentar trem e metrô - há uma estação a dois quilômetros de sua casa -, mas, pela distribuição da rede, Gilmar demoraria mais três horas. Teria de tomar seis trens diferentes e seguir viagem primeiro até Osasco para depois voltar para dentro da cidade.
"É tanta troca de trem lotado que só posso ir de ônibus", diz Gilmar, que sai de casa diariamente às 4h30, para chegar à Paulista às 6h40. À tarde, o tempo gasto é o mesmo. 
O segurança não pode optar pelo metrô porque, em décadas de investimento, o esforço para integrar novas linhas às ferrovias já existentes ainda não é suficiente. Ao ir de ônibus até o trabalho, em percurso também não integrado a estações de metrô, Gilmar contribui para a existência dos "movimentos pendulares", grande entrave na mobilidade urbana. Segundo estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, até 40% da população que trabalha nas metrópoles tem de se deslocar da periferia ao centro. Assim, vias de acesso e avenidas principais dos centros urbanos recebem tráfego que não suportam.
O desafio dos novos governantes é reduzir a distância entre viagens, com política de transporte integrada ao uso e ocupação do solo. "Ao construir uma estação, deve-se pensar no entorno e criar oportunidade de crescimento", explica o consultor Jurandir Fernandes, ex-secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo. "Assim, menos pessoas viajarão tanto para chegar a seus empregos."
Nailton: à beira do córrego, virose é rotina
A cada dois ou três meses, o porteiro Nailton Amaro dos Santos, de 28 anos, costuma ir ao posto de saúde de seu bairro, no Jardim Jacira, extremo sul da capital. E o motivo é sempre o mesmo: uma das filhas, Angel, de 7 anos, ou Nicole, de 4, pegou novamente a "virose". "Elas acabam no soro, desidratadas, e ficam três dias para voltar ao normal. E todos sabem por que isso acontece."
A causa dos problemas de saúde das crianças é falta de saneamento. A casa da família fica a dez passos do Córrego da Jurema, que recebe esgoto in natura dos cerca de 10 mil moradores do bairro. Angel e Nicole, "numa idade em que é difícil segurar", brincam na terra às margens do córrego e enfrentam doenças decorrentes disso.
Como o porteiro e seus familiares, outros 17,4 milhões de pessoas enfrentam o problema em regiões metropolitanas do País - a pior situação fica em Belém (PA), onde 90% das casas não estão ligadas à rede de esgoto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Na região metropolitana de São Paulo, o déficit atual é de 15% (ou 3,1 milhões de pessoas). Dentro da capital, porém, ainda há pontos críticos: em Parelheiros, na zona sul, por exemplo, 57% das casas não estão ligadas à rede de esgoto.
O problema do saneamento no País - que só atentou para isso na década de 1970 - passa pela falta de projetos no setor. Como os municípios não conseguiram apresentar projetos de obras para financiamento, o governo federal alterou o prazo para apresentação de planos de 2010 para 2014. "Significou empurrar para frente um problema já mais do que presente na vida de 18 milhões de brasileiros", explica o conselheiro do Instituto Trata Brasil, Raul Pinho.
Hugo: nova cidade, após quatro assaltos
Não levou um mês para que a família do analista de contas Hugo Siqueira, de 26 anos, se adaptasse à nova situação: teriam de mudar, se ainda quisessem ter paz. Numa noite de abril de 1996, a mãe, o irmão mais novo e Hugo ficaram 20 minutos na mira de assaltantes. Ninguém jamais esqueceu dos revólveres na cabeça, nem da sensação de virar refém. Por dias, a mãe não conseguiu dormir. A única forma de a vida voltar ao normal foi deixar a Casa Verde, na zona norte, onde a família sempre havia vivido.
"Mudamos para perto de familiares, para um proteger o outro", conta Hugo, que trabalha na Avenida Paulista e hoje vive em Taboão da Serra. Ele faz parte de um alto contingente de pessoas assaltadas na Região Metropolitana de São Paulo - a cada quatro domicílios, há uma vítima de assalto, segundo pesquisa de 2009 do Centro de Políticas Públicas do Insper (ex-Ibmec-SP).
No caso de Hugo, vários assaltos. Ele também já foi roubado na rua e dominado com amigos outras duas vezes - os ladrões sempre andavam em turma, armados. Em nenhum caso havia polícia por perto e ninguém pensou em fazer boletim de ocorrência. "Não senti a presença da polícia nenhuma vez."
Uma forma de aumentar a sensação de segurança é garantir a integração das polícias. "As inteligências das Polícias Civil e Militar devem unir os potenciais investigativo e ostensivo, numa transição de responsabilidade dos Estados", diz o sociólogo José Luiz Ratton, da Universidade Federal de Pernambuco. "A polícia articulada será mais presente na rua e a população confiará mais ao procurá-la." Discutida desde 1999, a integração das polícias nunca foi objeto de política pública eficaz dos governos estadual e federal.
Fabiola: rotina de estresse e ansiedade
Há dois anos, quando estourou a crise econômica, a administradora Fabiola de Andrade, de 25 anos, sentiu seus nervos "estourando também". "Era muita pressão. A empresa começou a demitir, só conseguia pensar que seria a próxima." Fabiola passou a ter crises de ansiedade e tremia sempre que um dos diretores passava perto de sua mesa. Quando procurou ajuda médica, contou ter medo de sofrer um enfarte.
Desde que começou a trabalhar no mercado financeiro, em 2008, Fabiola sofre com crises de estresse. O estilo de vida é determinante para se sentir "o tempo todo nervosa". "Sinto que não vivo bem aqui", resume a paulistana, cuja família veio do Nordeste.
Problemas no trânsito - duas horas diárias entre o Imirim, na zona norte, e a Avenida Paulista - e a falta de tempo para o lazer intensificam a ansiedade que o trabalho causa em Fabiola. Há dois anos, ela faz tratamento médico. Como a administradora, o mal atinge 35% da população das metrópoles, segundo o Centro Psicológico de Controle do Estresse, que estuda o transtorno desde 1985.
O "estresse inescapável" (ligado a situações inevitáveis, como o trânsito) e a desproporção entre tempo e valor do trabalho são algumas das causas específicas do estresse das grandes cidades. "As pessoas ficam no escritório até as 22 horas, em jornadas consideradas "normais". Não sobra tempo para descansar a mente e aumenta a probabilidade de crises de ansiedade", explica o psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP. Entre as doenças ligadas ao estresse estão depressão e desordem de ansiedade generalizada (preocupação desproporcional em relação ao problema).
Durvalina: mudança para ter emprego
Sem encontrar emprego em Poá, na Região Metropolitana de São Paulo, a diarista Durvalina Cordeiro, de 42 anos, mudou-se em abril para a Avenida Paulista, para um apartamento alugado ao lado do Parque Trianon. Conseguiu encontrar trabalho, mas sentiu imediatamente o problema de viver na região central de uma metrópole: o custo de vida aumentou, a família não consegue mais economizar.
"Mudei para arranjar emprego onde antes não conseguiria. Foi uma tentativa de aumentar a renda, mas, por enquanto, a conta não fecha", conta a diarista, que trabalha em casas na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona oeste de São Paulo.
Embora a renda da família tenha subido - de R$ 1,5 mil para R$ 2,4 mil mensais -, Durvalina está se sacrificando. Já não consegue reservar os R$ 500 mensais para a faculdade da filha, Elaine, de 16 anos. Da renda, 62% (R$ 1,5 mil) são gastos em aluguel e alimentação - acima da proporção aceitável pelo Ministério das Cidades. "Com o resto dos gastos, não sobra nada", conta. "Não vou conseguir pagar a faculdade. Estou incentivando que ela consiga emprego para pagar."
Em média, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a cesta básica em regiões centrais das metrópoles é 15% mais cara do que nas periferias. O aluguel para áreas centrais também sobe entre 15% e 25% para habitações de nível semelhante.
Para evitar que pessoas tenham de se mudar para aumentar a renda, a solução seria criar polos locais de desenvolvimento. "Se houver incentivo para a criação de serviços nas periferias, a renda sobe e os pagamentos também", diz o economista Sérgio Mendonça, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
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I am one of those guys with a fat address book - maybe because all my friends tell I'm charming and clever! But as far as I´m concerned, friendship is a club of seven people which was fully by the time I was 25. We all share the same interests, and we don´t make any demands on one another in emotional terms - which is something I would avoid like the plague. It´s not that I don´t like making new friends easily...They have to cativate me at first...We all grew up in the same social, professional and geographical world that we now occupy as adults. The group of seven offers me as much security and intimacy as I require!